A Procissão

Sexta-Feira Santa: dia da tradicional procissão do Senhor Morto, um dos eventos mais importantes para a minha mãe. Ela não perdia uma celebração da Semana Santa e fazia questão de que a gente participasse também — especialmente o meu pai, que não era doido de contrariá-la.

Minha mãe era muito religiosa e também muito preocupada com o que as pessoas iriam falar.

Nessa sexta-feira, nós subimos o morro de casa — minha mãe, duas irmãs dela, meu pai e eu — para acompanhar a procissão que saía da igreja do nosso bairro em direção à igreja do centro da cidade.

Quando chegamos à praça, a procissão já estava passando. Minha mãe e as irmãs entraram e seguiram junto com o povo. Meu pai, porém, olhou a cena e reclamou:

— Mas que coisa errada… o padre e o sacristão de boa no carro de som e o povo a pé carregando o andor? Eu não vou participar dessa palhaçada! Todo mundo tem que ir a pé, isso sim. Vamos é de ônibus.

Minha mãe nos fuzilou com os olhos, fez sinal para não fazermos aquilo. Eu respondi com um gesto de mão, tipo: “Não posso fazer nada, tenho que acompanhar o pai.” E fomos.

Quando descemos do ônibus, meu pai decretou:

— A procissão vai demorar. Vamos esperar naquele bar ali do outro lado da rua. Dá tempo de tomar uma cerveja e comer uma porção. Quando a procissão passar, a gente segue ela e tá tudo certo.

Quando a procissão finalmente passou, estávamos terminando a porção e na segunda cerveja. E se olhar matasse, o olhar de ódio da minha mãe teria fulminado nós dois ali mesmo.

Saímos do bar com dó de deixar a cerveja pela metade, mas achamos melhor não abusar da sorte. Entramos na procissão com a cara mais lavada possível.

Ela xingou a gente a semana inteira. Olhava e dizia:

— Que raiva de vocês! Me fizeram passar vergonha! O que as pessoas vão falar?

E eu:

— Mãe, eu não podia fazer nada. Tive que acompanhar o pai. Parceiro é parceiro.

Ela retrucava:

— Parceiros… dois sem-vergonhas!

Quando ela não estava por perto, eu e meu pai ríamos até passar mal da braveza dela.

Já fazem dez anos que perdemos os dois, e tem dias em que a saudade aperta. Mas uma coisa me consola: participamos muito da vida deles — e das traquinagens dele.

Agora só ficou a saudade… e as melhores lembranças.

Marilene Rodrigues de Oliveira.

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