Dona Marisa

Por Marilene Rodrigues de Oliveira

Eu estava sentada na sala de espera de um banco, esperando o gerente me chamar, quando deixei os olhos passearem pelas pessoas que, como eu, aguardavam atendimento. Foi então que meu olhar encontrou o de uma senhora.
Ela sorriu. Eu sorri de volta.

Trazia um chocolate na mão e, com um gesto firme e doce, me convidou a sentar ao seu lado e dividir aquele pedaço de alegria. Não era apenas um gesto de cortesia — era um convite silencioso para entrar em seu mundo.

E foi assim que conheci Dona Marisa.

Ela tem noventa anos e meio. Mora sozinha em uma chácara na cidade vizinha, cuida da casa, de si mesma e ainda faz queijo para a família — o que sobra, vende aos vizinhos. Vive uma rotina de prazeres simples.
Parece muito feliz com o rumo que sua vida tomou; a felicidade transbordava em cada palavra sua.

Falou do casamento de quarenta anos; do marido, não falou nem bem, nem mal. Contou sobre os filhos que criou e as perdas que enfrentou.
Um de seus filhos faleceu aos cinquenta anos, deixando três netos que ela ajudou a nora a criar. Hoje são adultos e estão bem.
O outro filho mora perto e a ajuda na chácara; a filha vive em uma cidade vizinha, e se encontram uma vez por semana.
E a vida, explicou, segue o seu curso — tranquila, leve.

De repente, um brilho travesso iluminou seus olhos:
— Fiquei casada quarenta anos… e agora estou namorando um novinho — disse, rindo.

— Nossa! Está namorando um novinho? Que demais! Quantos anos ele tem? — perguntei.
— Oitenta — respondeu. — O novinho tem oitenta anos.

Ela falou com uma ternura que parecia contagiar o ar ao redor.
— Estamos namorando. Eu o amo e ele me ama.
A senhora ao lado — depois apresentada como a filha — quis interromper, mas Dona Marisa foi rápida:
— Ah, deixa eu contar.

E assim começou a contar a história de um amor tardio, cheio de respeito e companheirismo.

— Ele se mudou para uma chácara próxima da minha — contou. — Um dia veio comprar queijo com uns amigos… gostou tanto do queijo quanto da dona.

No dia seguinte, voltou sozinho. Quando o vi no portão, perguntei:
— Veio comprar mais queijo?
— Não — ele respondeu — vim pedir você em namoro. Você é tudo o que eu quero para a minha vida.

— Demorei alguns dias para aceitar — disse ela, sorrindo —, mas hoje não consigo imaginar minha vida sem ele.
Namoramos dois anos escondidos dos filhos, e faz dois anos que contamos para eles.
Quatro anos de um amor maduro, tranquilo.

— Na minha idade — comentou, com serenidade —, ter alguém para dividir um pão de queijo, um café, um cochilo, uma prosa… é uma bênção.

Mas, como toda mulher sábia, ela estabeleceu suas regras:
— Não abro mão da minha liberdade. Gosto de ter um espaço só meu.

O namoro tem hora marcada: três vezes por semana. Ele chega, ajuda nas tarefas da chácara e sempre traz algo para o café — uma rosca, um bolo, uma broa.
Ela faz o café; ele arruma a mesa no terraço.
Tomam café conversando sobre a vida, os filhos, os netos.
Ele também é viúvo, tem filhos e netos. Falam sobre livros, filmes, lembranças.
Ele, ex- comandante de navio, conta sobre os lugares que conheceu; ela fala dos pequenos tesouros da própria vida.

O tempo passa rápido entre cafés, risadas e silêncios compartilhados no terraço, contemplando o mundo.
Às vezes ele fica para o jantar; às vezes a leva para passear ou para as quermesses da igreja.
Toda semana ele a pede em casamento, e toda semana ela responde:
— Não, ainda não estou pronta para perder a minha liberdade.

— É tão bom quando ele chega — disse, com um sorriso sereno —.
Se estou cochilando na rede, ele se aproxima devagar e, acariciando meu rosto, diz: “Cheguei, meu amor.”
Mas, também é bom quando ele vai embora, deixando minha casa só para mim.
Meu reino.

E naquele sorriso — sereno, travesso e sábio — estava a essência de uma vida inteira: amor, alegria, perdas… e uma imensa paz.

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