A festa corria animada: casais conversando, as “cumadres” colocando a prosa em dia, atentas às filhas — um olho no peixe e outro no gato. Quando se tem moça “sorteira” em casa, todo cuidado é pouco. Estamos no bairro dos Palmeiras, década de 40, época de costumes rígidos: moça de família não fala com estranhos; beijar na boca, só depois de casados; pegar na mão, apenas após o noivado — e olhe lá.
Zico, sentado em um banco, observava a linda morena, que escutava, entediada, a conversa de um rapaz alto e magro. Ele matutava: “Como vou chegar na moça?”
Nisso, um amigo se aproximou: Toninho Rufino.
— Toninho, conhece aquela morena conversando com o João?
— É a Cida. Mora no Barreiro, é irmã da minha namorada, a Eurídice. A gente namora escondido; o Joaquim Godoy, pai das moças, é uma fera. Por que pergunta? Está interessado nela por acaso?
— Interessado eu tô… mas ela tem namorado — respondeu Zico.
— Namorado?! Que namorado? O João arrasta um boi com chifre e tudo por causa dela! Mas olha bem para a moça. É cara de apaixonada por acaso?
— Você tem razão… Mas como livrar do João?
— Deixa comigo — disse Toninho.
E sumiu. Pouco depois reapareceu, caminhou até Cida e João e disse algo ao rapaz, que saiu correndo feito foguete em direção à estrada. Toninho pegou a moça pelo braço, trouxe-a até Zico e os apresentou. Em seguida, despediu-se:
— A ajuda de hoje não vai ficar de graça; você tem que me ajudar com o Joaquim Godoy.
— O que ele quis dizer? — perguntou Cida.
— Nada, nada… tonteira dele. Mas o que ele falou para fazer seu amigo sair correndo daquele jeito?
— Apenas avisou que o cavalo do João se soltou e fugiu. Às alturas dessas, ele e o cavalo já devem estar no Bairro dos Francos: um correndo atrás do outro.
Ficaram em silêncio.
Zico pensava: “E agora? Preciso impressioná-la!”
De repente, teve uma ideia luminosa:
— Cida, você conhece o Paraná?
Como a resposta foi negativa, ele começou a contar aventuras de uma viagem que teria feito à fazenda de parentes no Paraná. Narrou como subiu num girau para fugir de uma onça enormeeee e como matou uma cobra de não sei quantos metros. A cada história, nosso herói crescia diante dos olhos dela.
No fim da festa, ofereceu-se para acompanhá-la até em casa, junto com sua mãe e sua irmã. Recusar a companhia de um herói daquele porte? Nem pensar. Assim começou um namoro que terminou em casamento.
Meses depois, já casados, Zico precisava fazer uma cirurgia em Serra Negra e comentou:
— Nossa, Cida… eu não conheço Serra Negra. Só conheço Socorro e Lindóia.
— Comoooo? E a viagem ao Paraná, a onça, a cobra e tudo mais?!
Nosso herói, distraído e esquecido das próprias fanfarronices, respondeu:
— Que Paraná, que cobra, que onça? Do que você está falando, Cida?
Marilene Oliveira
Sertãozinho, anos 50.
Família Godoy.
Nosso herói, Zico Porfírio, está de pé à direita; minha irmã Ditinha está no colo dele; sentada na frente está minha mãe, Cida Godoy.
Saudades ![]()

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