Histórias do Barreiro
Para Ditinha
Um texto em homenagem à nossa mãe.
Aos nove anos, ela deixou a escola para trabalhar na roça. Não deve ter sido fácil, mas, apesar disso, ela nos contava histórias engraçadas e falava desse período da sua vida com uma leveza que nos encantava.
Saudades. ![]()
QUEM PAGOU O PATO
— Bastião, quer apostar que eu acerto uma pedrada naquele marreco gordo ali?
— Ci—ci—da, se vo—vo—você acertar, eu asso ele no… no… de—de—dedo! — gaguejou Bastião.
Os três amigos — Cida, sua irmã Lourdes e o menino Sebastião — voltavam para casa depois de um dia de labuta na roça de milho do pai das meninas, que ficava no sítio Caitezal, bairro do Barreiro, nas Thermas de Lindóia. Pararam para descansar, sentando-se em um barranco perto de um ribeirão.
Naquele trecho, as águas do ribeirão empoçavam, formando um pequeno laguinho onde nadavam alguns patos e marrecos gordos.
— Então vai ter que assar! — disse Cida.
Dito isso, apanhou uma pedra do chão e a jogou, brincando, sem nenhuma intenção de acertar. A pedra brilhou no ar e atingiu em cheio a cabeça de um marreco, que balançou como um joão-de-barro e caiu morto. A menina levou um susto tremendo.
Dentro dela, formou-se uma confusão de sentimentos: pena, muita pena de matar um ser tão bonito; medo das consequências do seu ato, medo da dona Amábila, a dona do marreco, descobrir e contar para a mãe. Dona Maria, a mãe, ficava muito brava quando os filhos aprontavam. E, por último, orgulho por ter ganhado a aposta e ter uma excelente pontaria.
— Meu Deus! — exclamou Lourdes.
— Ci—ci—da do céu, e a—go—gora? — perguntou Bastião, apavorado.
— E agora? E agora, bico calado, Bastião. Esse segredo a gente vai carregar para o resto da vida, ele vai com a gente para o túmulo.
Voltaram para casa cabisbaixos, sem vontade de conversar, como se calar sobre o acontecido pudesse desfazer o mal feito praticado.
Depois do jantar, a mãe estranhou o silêncio da menina, sempre tão falante.
— Cida, o que você tem? Está doente? — perguntou a mãe.
Foi como se abrisse uma comporta. Cida despejou todo o ocorrido.
— Mãe, o que eu faço? Conto para a dona Amábila?
Dona Maria pensou, pensou e disse:
— Hoje não podemos fazer nada. Não podemos devolver a vida do marreco, podemos? Domingo, vamos fazer uma visita à comadre. Levo de presente um frango gordo do terreiro, contamos tudo, pedimos desculpas. Ela vai entender que foi sem querer. E agora, vamos dormir, que amanhã é outro dia.
No dia seguinte, que sufoco! Eles obrigatoriamente tinham que passar na porta da casa da dona do marreco. Passaram quietos, calados, com medo até de olhar para a casa.
De repente, a porta se abriu. Quase os matando de susto, e para o horror deles, Dona Amábila chamou-os:
— Meninos, meninos! Eu estava esperando vocês. Ontem aconteceu uma coisa aqui no sítio que eu preciso contar para vocês.
Eles se entreolharam, preparando-se para correr, quando ela disse:
— O que eu quero falar é para vocês terem cuidado onde pisam, pois esse mato está cheio de cobras. Ontem mesmo, uma danada picou meu marreco mais viçoso, coitadinho. Encontrei ele boiando no laguinho, durinho, durinho. Deu uma dor no coração!
As crianças suspiraram aliviadas.
— Coitadinho… Pode deixar, Dona Amábila, vamos tomar cuidado. Obrigada por avisar — disse Cida, pensando: “Ainda bem que foi a cobra quem pagou o pato, ou melhor, o marreco. Sorte a nossa!”
Marilene de Oliveira.

Deixe um comentário