Temos rosas pra colher

Há oitenta anos aconteceu esta história.

A menina é minha mãe. E com ela aprendemos que, mesmo nas dificuldades, sempre há rosas para colher.

📖 Temos Rosas pra Colher

Marilene Rodrigues de Oliveira.

Bairro do Barreiro – Sítio José Souza, 1940.

Entardecia — o pedaço do dia que a menina mais gostava. Sentada em um banco na cozinha, sentia o cheiro delicioso do afogado cozinhando no fogão de lenha.

(Afogado é carne cozida, bem temperada, coberta com folhas de louro do brejo.)

O afogado da mãe era o melhor do mundo! As crianças colocavam o caldo com pedaços de carne no prato esmaltado e cobriam com farinha de milho — era de comer rezando.

Ela descansava, sonolenta, depois de mais um dia de trabalho no cabo da enxada. Apesar da pouca idade e da aparência frágil, tirava sua tarefa no cafezal com uma ligeireza que deixava muito marmanjo envergonhado.

Os sons do sítio chegavam até ela como se viessem de longe, filtrados pelo sono: o pai e a mãe conversando, as crianças brincando no terreiro, as galinhas se ajeitando para dormir, as seriemas cantando na mata próxima.

De repente, a paz foi quebrada por palmas no portão e uma voz chamando:

— Ô de casa! Ô de casa!

Visitas inesperadas sempre causavam apreensão, devido ao isolamento do sítio. A mãe foi atender; o pai ficou na porta, pronto para dar apoio, se necessário. A menina e os irmãos se esconderam atrás dele, assustados.

Eram três pessoas: um casal de idade indefinida — judiados pelo tempo e pela vida — e um rapazinho sorridente, cujo sorriso branco iluminava o rosto. Foi ele quem conversou com a mãe.

O rapaz contou que os velhos eram seus tios, irmão e irmã de seu pai. Ele era órfão e fora criado por eles. A tia não regulava bem da cabeça e o tio estava doente; por isso, ele não podia abandoná-los.

Vinham de uma cidade próxima, Serra Negra, da fazenda do seu Juca — um fazendeiro conhecido pela fama de mau patrão. O rapaz e o tio trabalharam muito tempo para o tirano, em tarefas duras, com pouco pagamento, e mal tinham o que comer.

Quando o tio ficou doente e só o moço podia trabalhar, o fazendeiro soltou os cachorros e os expulsou da propriedade, sem dó nem piedade.

Estavam indo para Minas, onde tinham parentes. Pediam pouso apenas por aquela noite, pois os tios não aguentavam mais andar e, de manhã cedinho, seguiriam viagem.

Os pais da menina trocaram um olhar indeciso. Recolher estranhos em casa era arriscado, mas deixar aquela gente sem ajuda exigia um coração muito duro. O pai assentiu com a cabeça, e a mãe os deixou entrar.

Depois do jantar, o pai os acomodou em um quarto bem arrumadinho, preparado para os três.

Naquela noite, todos dormiram no mesmo quarto: o pai, a mãe e as crianças. O pai trancou a porta — ainda estavam receosos, preocupados com a presença dos estranhos.

A casa ficou em silêncio. A menina escutou a mãe cochichar:

— Joaquim, você guardou as ferramentas?

— Estão aqui no quarto, debaixo da cama — respondeu o pai.

A menina também ouviu a voz do rapaz:

— Seu Joaquim, Dona Maria, não precisam se preocupar. Nós somos do bem, incapazes de fazer mal a um ser vivente — ainda mais a vocês, que só nos fizeram bem. Podem dormir em paz.

O sol, entrando por entre as telhas, clareava o quarto quando a menina acordou com uma voz chamando:

— Padrinho, acorda! Madrinha, acorda! O dia está clareando — vamos pegar a estrada, temos rosas pra colher!

Após o café, as visitas tomaram o rumo de Minas Gerais. A última imagem que a menina teve deles foi de três figuras magras sumindo na curva poeirenta da estrada.

Fim.

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