Marilene Rodrigues de Oliveira — 2023
Dedicatória
Para minha irmã Ditinha,
companheira de tantas memórias e risadas —
aquela que, com um simples telefonema,
me devolveu a magia do circo e da infância. ![]()
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Sinopse
Um carro de som anuncia a chegada de um circo à cidade e desperta lembranças vivas de infância: o tio Mário, o quintal transformado em picadeiro e o encanto das brincadeiras de outrora.
Entre risos, malabares e histórias de amor, “Uma Noite no Circo” é um convite à ternura, à memória e à fé no improvável — porque Deus sempre dá mais do que pedimos.
Uma Noite no Circo
Escutei na rua o barulho de um carro de som avisando que um circo havia chegado à cidade.
Voltei 60 anos no tempo. As arquibancadas de madeira, a lona furada, o cheiro de pipoca… Fiquei com saudade do meu tio Mário, o melhor tio que uma criança poderia ter. Ele nos levava ao circo e, nos dias seguintes, transformava nosso quintal em um picadeiro.
Naquele tempo, as coisas não eram descartáveis como hoje; uma ida ao circo rendia horas de conversas e tentativas de imitação. As mães ficavam de cabelo em pé com as artes da criançada. Nós e o tio Mário arrumávamos o quintal rapidinho. As arquibancadas eram feitas de tijolos e tábuas, restos de construção que meu pai guardava no quintal. A plateia — e também os coadjuvantes — éramos nós: as crianças, os gatos e os cachorros da vizinhança.
O artista principal era o tio Mário; ele era o equilibrista, o malabarista, o palhaço e o trapezista, contando com a nossa ajuda. A gente se revezava: às vezes éramos artistas, às vezes, plateia.
O centro do picadeiro do nosso circo era uma mangueira, onde meu tio fazia seus números de trapézio. Com um tronco de madeira e uma tábua, estava pronto o equipamento do equilibrista.
E os apetrechos para o espetáculo de malabares? As mães viviam reclamando que sumiam das suas cozinhas xícaras, pires, travessas e pratos. Éramos artistas incompreendidos…
Com essas lembranças, fiquei com vontade de ir ao circo. Insinuei para gregos e troianos me levarem ao circo; nada. Todos se fizeram de desentendidos.
Uma noite, quando já tinha desistido de ir ao circo sem companhia (acho muito triste ir ao circo sozinha), minha irmã Ditinha ligou e disse:
— Má, quer ir ao circo? Hoje o espetáculo é beneficente, a renda é para a igreja. Vamos?
Sem pensar duas vezes, eu respondi:
— Demorou! Vamos.
Chegando no circo, a magia voltou. Quando a cortina abriu e o apresentador entrou dizendo: “Respeitável público…”, fui transportada para um mundo paralelo, onde todo mundo é criança — crianças pequeninas e crianças com mais de 50, 60 anos; crianças de cabelos brancos, tão ou mais encantadas que os pequenos.
Ao meu lado, sentou um padre; seus olhos brilhavam com a alegria das pessoas e com o encantamento das crianças. Quando começou o espetáculo de malabares, vendo a felicidade do padre, perguntei:
— Padre, o senhor conhece o conto de Anatole France, O malabarista de Nossa Senhora?
— Conheço — respondeu ele. — Mas escutei também outra versão, de um médico que eu cuidei como enfermeiro; um médico muito humano. Isso aconteceu num momento crucial da minha vida. Por isso esse conto me marcou. Depois eu te conto.
O espetáculo continuou e foi lindo; mas o melhor ainda estava por vir. Eu sempre quis conhecer um circo por dentro; era um sonho de criança.
Na saída, estava me despedindo das pessoas quando chegou uma moça para cumprimentar o padre; era uma das filhas dos donos do circo. Seu nome é Linda — e ela é linda mesmo, uma moça maravilhosa. De repente, o padre se virou e disse:
— Linda, essa é a Marilene, uma escritora da nossa cidade.
Linda disse:
— Venha conhecer meus pais; eles têm uma história de vida muito interessante.
E começou a contar:
— Minha mãe era mocinha, filha de militar, estudava em colégio de freiras em uma cidade pequena e, mesmo com todos os obstáculos, quando o circo chegou à cidade, ela se apaixonou pelo toureiro e fugiu com ele.
Você precisa escrever a história deles.
Linda me levou para dentro do circo e conheci seus pais: um casal muito lindo e amável. Fomos convidados para jantar — o padre, minha irmã Ditinha e eu.
Eu, que tinha apenas sonhado em conhecer um circo por dentro, acabei jantando com o pessoal do circo! Deus sempre dá mais do que pedimos. Foi um jantar maravilhoso, recheado de boas conversas. O padre contou o conto do Malabarista de Nossa Senhora e a mãe dos meninos compartilhou sua história da fuga com o toureiro.
Essas duas histórias eu conto pra vocês outro dia; prometo!
Eu pedi para tirar uma foto com eles — senão, quem ia acreditar na minha história?
Chegando em casa, a reação dos meus filhos, quando eu disse que jantei com o pessoal do circo, foi impagável:
— Como assim? Conta essa história direito! Essa história merece ser contada com um café.
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