–Marilene Oliveira.
Todas as famílias que têm uma mulher por perto com certeza estão bem servidas de amor, cuidados e ternura.
Na família Godoi, temos muitos exemplos de mulheres fortes e corajosas.
A começar pela matriarca da nossa família, Maria Rosa de Godoi, minha avó, uma mulher que, nunca frequentou uma sala de aula, mas, não poupou esforços para que todos os seus filhos fossem para a escola, isso em uma época, que, para a maioria dos pais, escola para os filhos não era prioridade. Principalmente se a criança fosse mulher, aí os pais diziam que:
___ Saber ler e escrever só serve para trocar carta com namorado, melhor é ensinar as meninas a cozinhar, costurar…
O que não pode aprender na escola, Dona Maria aprendeu com a vida, adquirindo muita sabedoria. Era uma mulher de muitos saberes. Conhecia a erva certa para curar cada tipo de enfermidade.
Conhecia quais alimentos deveriam ser plantados em cada época do ano. Agora tá na moda as PANCs ( plantas alimentícias não convencionais), mas bem antes disso, a dona Maria já era especialista nesse assunto, era serralha no feijão, almeirão do cafezal refogado com polenta…
Conhecia também a reza e o santo certo para cada ocasião e aflição. Santo Antônio, para encontrar marido; São Lourenço, para curar feridas; São Longuinho, para encontrar objetos perdidos…
Maria Rosa era uma impressionante contadora de histórias, tinha um vasto repertório. À noite, reunia os filhos à beira do fogão para contar causos, contos de fadas, ensinar rezas e cantigas. Mais tarde, já morando na Morangão, ela reunia em sua casa os netos e bisnetos, para contar histórias e comer bolinhos de chuva.
Era alegre, festeira, passeadeira, generosa, se soubesse que uma amiga teve neném, lá ia ela fazer uma visita, levando um frango e um pacote de macarrão.
Era um costume do bairro do Barreiro: assim que sabiam que uma comadre estava esperando criança, as outras já separavam os franguinhos para levar de presente. Assim, a nova mamãe tinha a canja garantida para o resguardo inteiro.
Dona Maria Rosa sempre ajudava os necessitados. Minha mãe contava que os pedintes que passavam pelo Barreiro, e eram muitos, nunca saíam da casa da minha avó de barriga vazia.
Quando minha mãe era criança, grupos de pessoas acometidos por hanseníase vagavam pelas estradas, segregados pela sociedade, por causa da doença contagiosa.
Eles tocavam uma espécie de sineta, para avisar que estavam passando, e minha avó, mandava minha mãe, deixar na beira do caminho, comida, moedas, sabão…
Maria Rosa era casada com Joaquim de Godoy Neto, viveu a maior parte de sua vida no bairro do Barreiro, onde criou seus filhos.
Foi uma mulher que enfrentou muitos percalços, como perda de filhos e do marido, dificuldades financeiras. Em meio à revolução de 1932, precisou abandonar sua casa, seus pertences e fugir do Barreiro para as Três Barras, com as crianças pequenas, buscando abrigo em casa de parentes.
Ela sempre contava que cortou seu coração quando os soldados chegaram na sua casa. Eram muito jovens, estavam cansados e famintos. O capitão a aconselhou a fugir, dizendo:
___ Dona, pegue suas crianças e saia daqui, que a coisa vai ficar feia.
E ficou mesmo. Muitos jovens perderam a vida em nossas terras. No cemitério da nossa cidade, existe um monumento em homenagem aos soldados que morreram no confronto.
Em época de campanha eleitoral, minha vó, politiqueira que era, movimentava o Barreiro, buscando votos para seu candidato.
Dia da eleição no Barreiro, era dia de festa, os eleitores eram levados de caminhão, este fretado pelos candidatos, para votar na cidade.
Após votar, ganhavam um almoço, com macarrão, frango, guaraná e churrasco. Um banquete desses e a oportunidade de andar de caminhão não aconteciam todo dia, tinha gente que ia, “votar” várias vezes!
A minha avó, apesar da vida dura que levou, nunca perdeu sua alegria e sua fé.
Não perdia uma missa de domingo, uma reza, e sempre manteve a mania de fazer festa.
Merecidamente, a praça do nosso bairro leva seu nome:
Maria Rosa de Godoi.


