De Fabiola de O. Criscuolo – supervisionado pelo Professor Ismael Rielli.
Dia desses, recebo um telefonema do longínquo Nordeste. Era Fabiola Criscuolo, minha aluna do Tozzi, da década de 80. Indagava-me se eu tinha a cópia de seu texto “A Rua Santo Antônio”, de 1984. Infelizmente, não tinha.
Coincidência curiosa e agradável. No acervo de livros e Lps adquiridos do Paulinho dos Moreiras, lá estava um opúsculo intitulado “Conte Pra Nós”-concurso de textos sobre cultura popular, um livreto patrocinado pelo FUMEST, na superintendência de Luiz Volgran, irmão do deputado Paulo Teixeira do PT.
O texto A Rua Santo Antônio de Fabiola de O. Criscuolo da EEPSG Dr Francisco Tozzi da estância hidromineral de Águas de Lindóia, orientador, Professor Ismael Rielli abiscoitou o terceiro lugar.
O finado saudoso Octavio Marchi muito colaborou com preciosas informações de quem lá passou a infância.
O texto é meio longo, mas vale a pena.
” O TEXTO”
A Rua Santo Antônio
A Rua Santo Antônio de hoje é bem diferente da rua que vou contar a história. Atualmente ela não recebe este nome, e sim o de praça Dona Filomena Tozzi.
Essa rua foi construída por volta de 1922 por Dr Francisco Tozzi, com a finalidade de abrigar 13 famílias nas 13 casas por ele construídas, as quais eram todas geminadas e cujos respectivos donos eram todos seus empregados. A rua era de terra batida, porém muito limpa e bem tratada pelos seus moradores. Em frente havia um gramado nativo e em declive, onde as crianças brincavam e as mulheres estendiam as roupas. Havia também duas torneiras que pingavam o tempo todo e ai as donas de casa lavavam suas roupas, mas para isso era necessário fazer a fila e quem levantava cedo tinha o privilégio de ser a primeira.
Era uma rua sem saída. Começava perto do antigo engarrafamento e terminava no grande pomar, o qual era totalmente cercado e ninguém podia entrar. Atrás das casas havia um minúsculo quintal que não possuía utilidade alguma, a não ser para guardar algo sem importância. Mas os moradores não podiam se queixar, pois não pagavam aluguel.
Um pouco mais acima das casas, situava se o depósito de frangos que abastecia os hotéis e que às vezes, quando o calor era intenso, exalava um perfume desagradável. As donas de casa tinham de fechar portas e janelas.
Em frente à rua a uma distância de 500 ou 600 metros, localizava-se a grande residência da família Tozzi. Nas proximidades da casa havia repartições de utilidade da empresa como padaria, armazém, escritório, etc. Na padaria trabalhava como padeiro o inesquecível Carmelino; no açougue o bondoso Ernesto Tafner e o Sr. Rafael Giorgi, que com sua voz macia branda conquistava o coração daquele povo. Mais abaixo havia a cozinha dos empregados cujo chefe era o Sr. Sebastião Galote e seu ajudante, o Sr. Miguel Franco, que também nas horas vagas criava galinhas, estas pertencentes a dona Filomena.
Durante o dia a rua era barulhenta, com crianças brincando e conversas de moradores. Mas ao anoitecer tudo era silêncio. O movimento ia até as 10 horas mais ou menos. Se passasse dessa hora, aparecia na janela de sua residência o Dr Tozzi com seu famigerado apito e até as crianças, que já o conheciam, paravam de chorar.
Os moradores da rua não podiam ter animais de espécie alguma; nem gato nem cachorro ou passarinho. O gato criava pulga; o cachorro fazia barulho e os passarinhos no viveiro ou na gaiola, com seu canto infernal os acordava muito cedo. Se houvesse alguma galinha, o que era muito difícil tinha de ser de dona Filomena.
Mas a rua não era só feita de brincadeiras de crianças, movimento de moradores durante o dia e silencio à noite. Havia também muitas brincadeiras comuns entre os moradores da rua, que em sua quase totalidade trabalhavam no Hotel Glória, hoje de propriedade do governo e administrado pelo FUMEST. Entre as brincadeiras, era costume dos operários , quando saiam do hotel por volta das 8 horas da noite, caminharem em direção ás suas casas cantando e improvisando versos e saudando os moradores da Rua Santo Antônio. O coro cantava em ritmo de samba sempre o mesmo estribilho:
– eu fui passar na ponte
A ponte estremeceu
A água tem veneno morena,
quem bebeu morreu.
E assim, todas as noites, de porta em porta, por toda a extensão da rua os moradores eram saudados com os singelos versos, pois a comunidade se constituía de pessoas humildes e ingênuas. Numa dessas noites de garoa forte lá vinha vindo o vate Firmino, parando de porta em porta, fazendo seus versinhos. Ele sempre parava em frente a uma das casas para homenagear alguém em especial. Numa dessas casas morava o Sr João Conti, cozinheiro do Hotel Glória. Paravam em frente a sua casa e o poeta Firmino da Silva, que era arrumador do Hotel Câmara, saudou o Sr. João Conti cantando:
– aqui, quando chove, chove bastante
A água passa por debaixo da ponte
Agora vamos saudar
O nosso amigo João Conti.
Acompanhando o negro Firmino, o coro repetia o famoso estribilho todas as noites:
– aqui quando chove, chove bastante…
Além desse divertimento para a população da rua, havia também, ás vezes, um baile na garagem, mas que não podia passar das 3 horas da manhã, se não da próxima vez não haveria nem baile nem nada.
Havia também as festas da Rua Santo Antônio. É claro que para elas se realizarem era necessária a permissão do Dr Tozzi. Dentre as festas que se realizavam principalmente no mês de junho e também julho, a mais famosa era aquela dedicada à Nossa Senhora das Graças, comemorada no dia 2 de julho. Havia também a festa de São Pedro comemorada no dia 29 de junho. O grande animador da festa, o negro Firmino, que estava sempre dançando no meio da congada vinda de Lindóia. Tocava um bumbo feito de coro de boi que enchia com seu som todo o bairro das Águas Quentes.
O povo da Rua Santo Antônio fazia grande fogueira ao redor da qual se promoviam rodas de samba, congadas e outras danças. Toda essa folia ia até o raiar do dia seguinte. Era um divertimento salutar, mas por demais simples, onde os improvisadores poetas faziam versos singelos. O coro formado por homens e mulheres, cantava a estrofe. Um verso que era cantado a noite toda, até o raiar do dia, dizia:
– amarelou…amarelou…
A barra do dia amarelou…
E o improvisador poeta entrando na roda de samba cantava:
Eu plantei um pé de tripa
Pra comer uma tripaiada
O pé de tripa morreu
Não comi tripa nem nada.
Tudo era alegria durante o dia da festa. As pessoas se reuniam para fazer barracas, fogueiras, enfeites e outros arranjos para festa. Nesta noite o famigerado apito do Dr Tozzi não funcionava. Tudo era maravilha! Porém com muita ordem e disciplina, pois caso contrário no próximo ano não haveria festa.
Havia na rua uma moradora que era um verdadeiro anjo da guarda. Esta sim,era uma boa criatura. E era através dela que tudo se arranjava, quer dizer, aquilo relacionada a festas e aos bailes. O Dr Tozzi tinha verdadeira adoração por ela, pois ele era seu pai! Seu nome? Dona Darinha!
O negro Firmino era quem mais se destacava na rua. Era o rezador da paróquia e, além disso, cantava no coro da igreja. Era também poeta. Fazia versos sempre baseados no abc…qualquer alegria ou tristeza que sentia, lá estava ele fazendo singelos versos onde descrevia cada morador da rua. Para ele todos eram maravilhosos. Além do negro Firmino havia o Zé Inácio. Este sim era quem animava os bailes. Não perdia um.
Quando chegava o sábado sempre havia um bailinho na casa de alguém que residia na rua, então o famoso Zé Inácio vestia seu impecável terno branco e não perdia uma só dança. Ele movimentava o baile. Chamavam-no de mestre-sala. Com isso, incentivava as mocinhas a dançarem, tendo o capricho de ensinar tanto as moças como os moços.
Era uma grande animação na época das festas. Mas depois a vida voltava ao normal e sempre na mesma rotina. As noites eram sempre quietas sem ter o que fazer em termos de diversão. Alguns tinham divertimentos mais particulares. Como os amigos do Sr. Otávio Marchi, filho de Alexandre Marchi, encanador daquela época, que em certas noites se reuniam ao seu redor para ouvi-lo contar os romances que lia. As estórias fantásticas de folhetos da época. Estórias de Romeu e Julieta, O Conde de Monte Cristo, as façanhas de Phantomas, etc. era tão grande a empolgação ao ouvir as estórias que muitos perdiam a noção do tempo. De repente alguém lá da janela estava com seu apito avisando que era hora de acabar com o barulho. Daí eram terminadas as façanhas nas quais estavam metidos.
Mas além de brincadeiras e festas havia também trabalho e escola para a criançada estudar.
Nesta rua funcionava uma escola mista que foi fundada por volta de 1930 e só foi desativada quando se criou o grupo escolar nas proximidades do Hotel Tamoyo. Ela foi criada pelo Dr.Francisco Tozzi e funcionava um só turno. Assim, era comum as classes com mais de 50 alunos, e havia uma só professora para as 1, 2 e 3 séries. A escola não possuía a 4 série uma vez que era uma escola rural e não um grupo escolar.
A primeira professora desta escola chamava-se Dona Maricota Afonseca. A segunda foi dona Mercedes Passos Tozzi. A terceira, Dona Nenê Zucato. A ultima professora de escolinha foi dona Célia Pascoli Coli. E assim funcionava a escola da Rua Santo Antônio, onde as crianças aprendiam a ler e escrever.
Nessa rua moravam muitas pessoas importantes, pessoas que vivem ainda hoje e outras que deixaram descendentes de grande influência na cidade, os quais fazem elevar o nome desta Águas de Lindóia, eram eles:
- -Raul Domingues, pai do Sr. Vitor Domingues;
- – José Gomes Amaral, pai de Dona Lola Gomes;
- – João Moreira, cunhado do Sr. João Conti;
- – Dona Juventina, mãe do Sr. Angelo Néspoli;
- – Morangão;
- – Messias Galote;
- – Antônio Pirani;
- – Aparecido Pirani;
- – Constante Fiori;
- – Alexandre Marchi, pai do Sr. Otávio Marchi;
- – Guilherme Barbosa;
- – Ernesto Tafner;
- – Firmino Marciano da Silva;
- – João Conti;
- – Humberto Avancini;
- – José Inácio da Silva;
- – Luiz Barbosa, esposo de Dona Maria Amélia Barbosa.
Esses eram os moradores daquela rua que hoje não existe mais, mas que ficou na memória dos que lá viveram. Hoje tudo está mudado! Lá do alto da igreja Nossa Senhora das Graças, descortina-se o que outrora foi o grande pomar e uma rua bem limpinha de terra batida e sem saída. Mas chegou o progresso e com ele nada mais resta senão somente a saudade dos que ainda vivem, viram e sonham aquilo que ontem foi a Rua Santo Antônio.
Fotos: João Eduardo Biscuola.


