Professor Ismael Rielli.
Se OZ tem um mágico, nós também temos o nosso Udine: Gilberto Pinheiro.
No concurso ”conte pra gente” de 1986, do FUMEST, o colégio Tozzi abiscoitou dois prêmios: 3 lugar para Fabiola Criscuolo com “A Rua Santo Antônio” e Gilberto Pinheiro, 5 lugar com “A Mudança do Padre”, que transcrevemos a seguir, com autorização do autor. Como prêmio, Gilberto ganhou um fim de semana no hotel Glória de Peruíbe. Levou a namorada Neusa Nucci, esposa e mãe de seu filho.
Dezessete de janeiro de 1975; sete horas da manhã. Eu e Pedro, um amigo que conheço desde a infância, engraxávamos sapatos juntos. É impossível falar de minha infância, sem falar em seu nome.
– Beto acorda! A turma já “tá” indo pra casa do padre, se você demorar vamos ter que ir sozinhos.
– Você trouxe a bola? Perguntei-lhe.
– Claro que trouxe! Respondeu-me. Tomamos um bom café e fomos.
-“Bença” Padre.
– Deus te abençoe meu filho.
Que bom, íamos fazer um piquenique no Cavalinho Branco, um lugar bonito, cheio de pinheiros, com um lindo lago e lugar para nós jogarmos bola.
Padre Eduardo era quem nos levava, iam muitas pessoas, uns sobre os outros no fusca do padre. Ele era muito bom, levava sanduíches, balas e não deixava a gente apanhar dos grandões, também perdoava os pecados de quem fizesse a primeira comunhão.
Era espanhol, gordo, inteligente, usava óculos, era autoritário e um tanto quanto conservador, mas apesar de tudo era bom. Na volta do piquenique tudo era bagunça, nós quase virávamos o fusca do padre com tanta bagunça. Ninguém entendia nada ; eram os nossos berros misturados com a voz do padre espanhol que tentava acalmar nossos ânimos. Quando chegávamos, o padre fazia o “aleluia” das balas que sobravam.
O tempo foi se passando, e com ele, nossa mentalidade foi evoluindo. Já estávamos preparados para ter as aulas de catecismo. Todos os sábados e domingos o padre avisava na igreja, sobre o local onde nos inscrever para ter as primeiras aulas de catecismo. O local era a creche e quem dava a aula era a Madre Telvina, uma senhora muito simpática e bondosa.
Foram-se alguns meses de preparação, muito estudo, muita bagunça e muita briga.
Era chegado o dia da nossa primeira confissão. Era aquele medo! Todos contentes por serem perdoados, mas nervosos por terem que contar certas coisas íntimas ao padre. O local dessa primeira confissão foi a creche.
Cada pessoa que entrava na sala de confissão, o padre recebia com um sorriso, que demonstrava sua imensa alegria por poder, através de Deus, perdoar nossos pecados. Isso foi num sábado, no domingo seria o dia em que iríamos comungar.
Foi um grande dia! Jamais esquecerei.
O padre fez o sermão, mas eu lembro muito pouco o que ele disse, uma das frases que me marcou foi quando ele disse que nós não poderíamos deixar de frequentar a igreja, deveríamos ir sempre, pelo menos uma vez por semana.
Lembro-me que nos primeiros três meses todos aqueles que fizeram a primeira comunhão comigo continuaram frequentando a igreja.
O tempo foi se passando. Alguns continuaram frequentando, outros abandonaram o estudo para trabalhar, e assim novos rumos fomos tomando. Da turma dos que fizeram a primeira comunhão comigo, poucos continuaram a frequentar com assiduidade.
O padre se lamentava, e em quase todas as missas pedia para que as mães mandassem seus filhos para a igreja. Onde que ele encontrasse com a gente, pedia para que fôssemos a missa.
Conheço muitas pessoas que continuaram a frequentar a igreja por influência dos pais, principalmente as meninas. Também conheço pessoas que realmente gostavam. Outras iam para serem coroinhas.
Infelizmente, conheço outras que não iam mais a igreja, estavam tomando outros rumos, os primeiro a ter contato com a droga em nosso bairro.
No pequeno bairro, todos logo ficavam sabendo, inclusive o padre, que na igreja dava mil conselhos, falava e orava por eles. Era realmente triste ver amigos nesta situação.
Ele falava um pouco rápido e enrolado, poucas pessoas entendiam e, como disse no começo, ele era um pouco conservador e apesar do seu esforço, não conseguia atingir os jovens diretamente. Faltava algo. Havia na cidade pessoas que não simpatizavam muito com ele, por motivos que desconheço.
Como todo ser humano, padre também descansa e, sempre que podia, viajava para sua terra natal a fim de rever sua família. Foi numa destas viagens que ficamos sabendo do seu falecimento.
Foi um surpresa muito desagradável, ninguém esperava, ele que parecia ser tão sadio, de repente… morre!
Realizou-se a missa do sétimo dia. Muitas pessoas estavam presentes, todos tristes com sua morte, mas ao mesmo tempo conformado por ele ter morrido ao lado de sua família.
Passou-se algum tempo e havia uma pergunta no ar: quem será o novo padre?
O município é grande e precisa de um padre.
Nesse ínterim as missas estavam sendo rezadas pelo padre de uma cidade vizinha (Monte Sião) e por um diácono.
A situação permaneceu inalterada, até que um dia algumas faixas anunciaram a chegada do novo padre: ”seja bem vindo padre Chiquinho”. Quando li, logo imaginei um padre pequeno e velhinho. Eu não o conheci quando de sua chegada, mas fiquei sabendo que ele foi muito bem recebido, tendo causado ótima impressão e gostado da cidade.
Eu estava trabalhando num dos dias de carnaval, quando um amigo chegou e disse que tinha conhecido o novo padre. Eu logo perguntei se ele tinha ido à missa na noite de carnaval, e ele me respondeu que não, que havia conhecido o novo padre brincando no carnaval!
Fiquei um tanto espantado. Mas era verdade! Ele, além de fumar e beber uma cervejinha, também brincava carnaval!
Foi um choque pra min e para muitas outras pessoas. Umas acharam ótimo, outras um absurdo, outras pensavam em abandonar o catolicismo e, em meio a tanta polêmica, ouvia-se dizer que em suas missas ele falava muito bem, era prático e tinha uma incrível facilidade de se adaptar ao meio jovem.
É francês, baixo, magro e usa barba. Não anda de batina pelas ruas, quem não o conhece jamais diz ser ele um padre.
Um mês após sua chegada, já havia conquistado muitas pessoas. Em seus sermões ele dizia que se alguém tem algo pra falar contra ele, que não faça fofoca, vá até ele e fale. Eu vi muitas mulheres, dessas que falam da vida de todos, junto do novo padre.
Dizem que em campinas ele realizou grandes trabalhos na reabilitação de prostitutas, viciados e mães solteiras e que pretende fazer o mesmo aqui.
Quem tem algum desses problemas e ouve algo assim, fica contente em saber que não está só e que a igreja da qual faz parte pretende ampara-lo.
É constrangedor sentir que tantas normas deixadas pelo outro padre não tem muito sentido para esse. Mas ao mesmo tempo é animador sentir que a “massa” está gostando. É ótimo perceber que pessoas que me pareciam frias, agora estão se sensibilizando. Os marginalizados já estão sentindo que podem e devem novamente frequentar a igreja. Isso talvez sirva de alavanca para uma pequena, ou quem sabe, grande melhora.
A mim particularmente, o novo padre está indo contra alguns de meus princípios. Mas isso não é problema, pois os meus princípios e de muitos outros não estão errados, mas não estão sendo vistos a luz de nossa época.
Não vamos mudar nossos princípios, pois pra mim são imutáveis, mas podemos ampliar nossa visão em relação a eles.
Abaixo cito uma opinião de uma senhora com relação ao novo padre. Uma dessas senhoras que praticamente todos os domingos está na igreja.
Ei-la:
– “Bem…sei lá” Eu gostava mais do padre Eduardo, mas estão falando que em todos os lugares está assim, muda tudo, é tudo novo, eu não sei se, o padre Eduardo tivesse vivo, ia ser assim também!”.
Agora a opinião de um jovem, desses que só vão a missa em datas especiais:
– Eu achei legal; o padre disse que vai organizar reuniões de jovens. “Eu quero frequentar, pois o padre é o maior barato”.

