- Marilene Rodrigues de Oliveira
A festa corria animada, casais conversando, as “cumadres” colocando a prosa em dia, atentas as filhas. Um olho no peixe e outro no gato, quando se tem moça “sorteira” em casa todo cuidado é pouco.
Estamos no bairro dos Palmeiras, década de 40, época de costumes rígidos, moça de família não fala com estranhos, beijar na boca só depois de casados, pegar na mão só após o noivado com muito acordo.
Zico, sentado em um banco, observava a linda morena de olhos morteiros que escutava entediada a conversa de um rapaz alto e magro. Zico matutava, “Como vou chegar na moça”.
Nisso um amigo se aproximou, o Toninho Rufino.
___ Toninho, conhece aquela morena conversando com o João?
___ É a Cida, é irmã da minha namorada, Eurídice. A gente namora escondido, o Joaquim Godoy, pai das moças, é uma fera. Porque pergunta?
Está interessado nela por acaso?
___ Interessado eu estou, mas ela tem namorado respondeu Zico. ___ Namorado?! Que namorado? O João arrasta um boi com chifre e tudo por causa dela, mas olha o jeito da moça. É de moça apaixonada, por acaso?
___ Você tem razão. Mas como vou me livrar do João? ___ Deixa comigo
Dizendo isso, sumiu por alguns instantes. Quando reapareceu, Toninho dirigiu-se ao casal, Cida e João, e disse alguma coisa ao rapaz, que saiu correndo em direção a estrada.
Toninho, pegando a moça pelo braço, a trouxe até o Zico, e os apresentou. Em seguida se despediu, dizendo:
___ A ajuda de hoje não vai ficar de graça, você tem que me ajudar com o Godoy.
____ O que ele quis dizer? perguntou a Cida,
____ Nada, nada tonteira dele. O que ele falou para fazer seu amigo sair correndo daquele jeito, Cida?
____ Ele só fez o favor de avisar que o cavalo do João se soltou e fugiu, nessas alturas João e o cavalo devem estar no Bairro dos Francos, um correndo atrás do outro.
Ficaram em silêncio. “E agora, o que eu faço, preciso impressionar ela?”, pensou Zico e repente teve uma ideia luminosa.
____ Cida você conhece o Paraná?
Diante da negativa da moça, ele começou a narrar as aventuras de uma viagem que fizera à fazenda de seus parentes no Paraná. Contou como subiu no girau para fugir de uma onça enormeeeee, como matou uma cobra de não sei quantos metros. E a cada aventura narrada o nosso herói crescia diante dos olhos da moça. No fim da festa, ele se ofereceu para acompanhar, ela, sua mãe e irmã até em casa. Recusar a companhia de um herói de tal porte nem pensar. Assim começou um namoro, que resultou em casamento .
Meses depois, já casados, Zico necessita fazer uma cirurgia em Serra Negra e comenta:
___ Nossa! Cida eu não conheço Serra Negra, só conheço Socorro e Lindóia.
___ Comooooo? E a viagem ao Paraná, a onça, a cobra e tudo mais?
Nosso herói distraído, esquecido das mentiras, responde:
____ Que Paraná, que cobra, que onça? Do que você está falando, Cida?
Marilene Oliveira.
Sertãozinho anos 50.
Família Godoy.

