As castanheiras da Escola dos Francos

José Alaercio Zamuner

Vai longe o tempo em que a escola dos Francos tinha muitas castanheiras que subiam verdes e frondosas, e em uma época do ano, encobriam toda entrada da chácara e frente da escolinha. Lembro-me que havia também muitas outras frutas. A escola ficava no meio de um pomar. O Bastião Pir era o cuidador, não deixava as crianças estragarem as frutas: laranjas, mangas, bananas, caquis, abacates, tudo compondo a área na soma com livros e professores para sustentar as fomes das crianças: de alimento e saber, plano bem estudado, calculado por Vovó Lili, que um dia doou a chácara para esse fim: alimentar as crianças de suas fomes na ESCOLA DOS FRANCOS.

Bom, assim foi bem pensado, assim seguiu esse plano da Vovó Lili. Porém, crianças são sempre crianças, e em épocas de castanha madura (deve-se explicar, essa castanha era a da qualidade pecã, que fica muito alta e ao estar pronta, madura, caía de seus cachos com o vento.) Então, as crianças lá dentro da sala de aula, castanheiras lá fora, cachos secos, prontos a qualquer movimento, as crianças sabendo disso, professora explicando os pontos da cartilha Caminho Suave: “Qual é o pé mais rápido do mundo??”, tempo de castanha madura, e sempre vem pé de vento forte na subida dos Francos, e vinha pé de vento forte… Ah, a criançada de meninos e meninas (Filhos dos: Franco, Satiro, Bressan, Ferla, Carinta, Borba (Joaquim Bertina), Gâmbaro, Silva, Dizeró, Genciani, Camilo, do seu Zico Tropeiro…) saíam desembestados colher as castanhas, professora, Bastião Pir, serventes gritando cuidados. Voltavam com bolsos cheios. O cuidado seria para que alguma criança, mais afoita, não atirasse paus nos cachos para derrubar mais castanhas: só se via a criançada corre que corre, ágeis, cata que cata (essa é minha, eu vi primeiro!) as delícias que forravam o chão de alegria.

Isso tudo dentro da área da escola, mas como as castanheiras ficavam bem na beira da estradinha que sobe pros Pimenteis, as pessoas outras, os adultos do bairro também vinham em mutirão catar as castanhas que vinham voando alimento pelo céu dos Francos.

Um dia, o Chã-Chã, filho do seu Zico Tropeiro, jogou um pedaço de galho seco num cacho de castanha, o galho voltou e caiu na cabeça do Julião, sangrou um pouco. Não houve transtorno, principalmente porque o Chã-Chã era um menino especial, de juízo muito mole mesmo.

O que fica com tudo isso é uma enorme alegria de crescer num lugar que foi moldado exato para suprir as fomes primeiras do homem: fome de alimento, fome de saber e fome de alegria, que as crianças cresciam saciadas em quantidade mil, tudo pensado, formado e doado pela Vovó Lili, dona da alegria dos Francos, das Terras de Cantare.

– Deus lhe pague, Vovó Lili!!…

Escolinha dos Francos sendo reformada.

Posto de saúde do bairro dos Francos.

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