A Biscuolada

Esse texto é ao mesmo tempo, resgate histórico e homenagem a uma grande mulher Eleta Gianotti Biscuola, parteira, benzedeira, conselheira para todas as horas, era para sua casa que as pessoas corriam na hora da aflição.

O Professor Ismael Rielli, através de sua escrita culta e divertida nos leva em uma viagem ao passado de Águas de Lindóia.

Sem palavras para agradecer esse presente.

Filhos e netos da grande parteira, que aparou a maioria das crianças que vieram ao mundo em nossas plagas, nas décadas de 30, 40, 50, inclusive esse escrevinhador, Eleta Gianoti Biscuola, moravam onde hoje estão o SAAE e a estação de tratamento d’agua, entre a rua Duque de Caxias – hoje rua São Paulo e o “Corguinho” bem mais volumoso naquela época, pródigo em seixos que o Miro Biscuola colhia, quebrava com uma marretinha e vendia para construções.

Eram 5 homens: Zé, Tião, Toninho, Nei e Miro e 2 mulheres – Maria da Leta, parteira e benzedeira como a mãe e a Cidinha esposa do Zé Felipe, motorista de caminhão.

Menor a população, menor o raio de convívio, eram comuns casamentos de dois irmãos com duas irmãs.. Foi o que aconteceu com Zé e Toninho que se casaram com duas filhas de Joaquim Augusto – Cidinha e Ditinha, cujos filhos são bi primos. As outras duas filhas do Joaquim Augusto eram a Maria do Zé Paulino e a Aracy Montoia do Gastão.

Maria da Leta, esposa do Zé Maria, cozinheiro do Tamoyo, era um pé de boi: vivia lavando roupa, benzia muitos que a procuravam, dom que transferiu para a filha Euridice, benzedeira de renome. Quando desapropriada sua casa, mudou pro sitio do Morro Pelado(Cabrita), onde ordenhava suas vacas e vendia leite.

Alugou um quarto de sua casa para um barbeiro vindo de Socorro, Romeu Nicoleti, que logo casou com a segunda filha – Euridice. Cibele a mais velha, já se casara com o farmacêutico Sodário.

Muitos Biscuolas foram barbeiros e também corretores de imóveis, por influencia de Romeu, o pioneiro. “O imóvel que lhe convém, Romeu tem”.

A barbearia do Romeu ficava no térreo do Hotel do Lago, que também acolheu o banco Itaú, o Bazar do Lago – sempre novidades, do Zé da Carola.

Depois Romeu mudou para a Rua São Paulo, ao lado da casa Confiança, perto do tintureiro Zé Fabricio e, depois, na mesma rua, pra loja do Felice. Romeu atendia muitos hóspedes e no espelho, afixava alguns anúncios de casas e lotes à venda de amigos e conhecidos. O negócio pegou “talmente” que Romeu encostou a navalha e a tesoura e virou corretor de imóveis = o Pioneiro.

Acompanharam-no na profissão os cunhados Dirceu e Darcy, os filhos Romeuzinho e Romualdo, os netos Otávio e Marcelo e o sobrinho Geraldo.

Lidavam com cabelo: Zé Biscuola, Décio, Darci, Nenê e Fernandinho.

Tião Biscuola, casado com Teresa Barbosa, foi um excelente pedreiro.

Nei Biscuola, da Marcilia, foi barman, por muitos anos do sofisticado Hotel Glória.

Toninho Biscuola trabalhava no DER, na topografia de estradas da região.

Miro foi pedreiro e pintor.

A propriedade do Clã Biscuola ficava na área nobre das Thermas.

Desapropriada pelo prefeito Aparecido Pirani para a instalação do SAAE, todas as casas foram pro chão, inclusive duas bem novas do: Zé Biscuola e do Dirceu, bem na beiradinha da rua.

Espero que tenham sido dignamente indenizados.

Maria da Leta foi pro Morro Pelado, Toninho pro Acre e Nei pra Grécia.

Daquela comunidade familiar – foto anexa – só resta saudade, muita saudade.

Adendo

No nosso penúltimo texto onde abordamos a Vila Roberto, não citei uma ilustre moradora que por lá passou.

Na terceira casa, estilo Alpino, da esquerda pra direita lá residiu, alternando com a capital a famosa escritora Maria José Dupré (Éramos Seis) que também se assinava como Sra Leandro Dupré. Alguns de seus livros como O Cachorrinho Samba foram escritos aqui.

Era intima e muito forte a relação do casal Dupré com a família do Serafim Parreira. Eva trabalhava pra eles. Adão frequentava-lhes a casa e Lourdes foi pra São Paulo com os Dupré, com quem conviveu por 3 ou 4 anos. Tivesse ficado, poderia ter-se tornado herdeira, já que o casal não teve filhos.

Outros escritores frequentadores da nossa estância: Lygia Fagundes Telles – Hotel Glória; Cecília Meireles – Hotel Tamoyo; José Gandra Martins, pai do Ives Gandra e do maestro João Carlos Martins.

Depois que os Dupré voltaram, definitivamente pra São Paulo, aquela casa foi alugada para uma família holandesa: os Kempers.

Foto

Viva Águas de Lindóia.

A Vila Neusa e a Vila do Aristides – Personagens da Nossa História N9

Os hotéis do Lago e Beaucault (depois Mantovani) eram do mesmo grupo comandado pelos filhos e genros do Cirilo e da Pascoalina. Todos começando com A: Adolfo, Aida, Ari, Airton e Alair.

Os hotéis forneciam morada para os funcionários.

O genro, Nini, era peça importante dessa engrenagem. Marido da longeva Aida que continua vendendo saúde, Nini não teve uma vida muito longa, mas foi dinâmico, ousado e empreendedor.

Talqualmente, seus três filhos homens também nos deixaram prematuramente, fora do combinado. Belas e fagueiras, fortes e rijas vivem as filhas Nícia e Neusa.

Neusa existe, elegante e bela, mas a vila Neusa não há mais.

Também outro latifundiário de nossa estância, o fazendeiro Maciel, homenageou suas duas filhas com a Vila Beatriz e a Vila Heloisa antigamente conhecida como Vila Seca.

A Vila Neusa assim batizada em homenagem à filha do Nini que, guapa, convive conosco, aqui na “cidade das Aguas Azuis”.

Na Vila Neusa, dois blocos de casas simples, parede-meia moraram muitas e muitas famílias de empregados dos hotéis do Lago e Beaucault.

Zé Mourão, que abatia frangos caipiras, que chegavam em jacazadas e mais jacazadas dos bairros das cercanias.

A esposa, Sinhana Mourão, era uma costureira (alfaiate) de truz. Era ela que confeccionava nossas calças quando trocávamos as calças curtas por calças compridas. Era dócil, de fala mansa. Costurava e cuidava da casa e dos filhos.

Moraram na Vila Neusa as famílias do: Américo Páscoli, do Avante Armigliato, do Zé Pelatieri, do Nego do Bermiro, do Paulo Zampieri, do Zé do Vito, da Araci Montoia, do Luis Fregonesi, do Pedro Paes, do Zé Geciani da Catarina, do Tico do Tirijo, do Tato, do Zé Silva, porteiro do Lago, do Dito Pisca-Pisca, do Zé Leite, do Geraldo Pinto, do Telo, do Labrado, do Chico Moraleti, do Antonio Stacheti, do Zé Pinante, do Miguelzinho, do Ditinho da Romilda, do César Fregonesi, da Dita do Miguelão, do Clécio Bragato, da Hebe…

A Vila Neusa ficava na parte de cima do Jardim Maciel, na ultima rua onde hoje estão as casas do Pedrosa e do Lacerda, perto de onde, mais tarde o Alfredão instalou um Tobogã.

Vila Neusa não há mais, mas continua viva na memória de muitos que lá moravam.

A vila do Aristides

Seria Aristides Riciluca o administrador daquele conjunto de casas modestas geminadas exatamente na atual Vitória Régia? O fato é que era conhecida como Vila do Aristides e ia bater na casa do Isaias, que, avançando na rua, lá permanece tal qual até hoje. Perto dela, separadas 3 ou 4 casas. Numa delas moravam a família Belini, do Orestão, homem forte que costumava, sozinho, levantar cavalos, quando inspirado.

Ao lado havia ali uma enorme paineira assassina, cujo tronco virou a pá carregadeira do jovem, batalhador, empresário promissor, Toninho da Carmélia,ceifando-lhe a vida tão precocemente.

Ali ficava a horta da Véinha, mãe do Dorvo, da Gonçala e da Francisca.

Na Vila do Aristides morava o Doro, pai do Pascoal, irmão da Natalina Valesi, alugador de cavalos, que manquitolava. Dizia – se que começou a mancar, depois de ter pisado num espinho de cobra. Teria nisso alguma lógica cientifica? A verdade é que, nós, da roça, sempre enterrávamos as cobras que matávamos (hoje não se mata mais cobra) não as deixávamos penduradas em cerca de arame. Temíamos o veneno do espinho delas.

Moraram também as famílias do Parmiro Vesco, do Mario Canela, do pipoqueiro e alugador de cavalos – Gusto Maciano, do Bastião Frozino, sempre risonho, cachimbo na boca, Bastião Calça Curta que usava cinta meio atravessada, contornando barriga avantajada, sem usar os passadores. Na primeira casa sempre moraram Isaías, o factótum da prefeitura, a esposa Hilda e os 3 mosqueteiros: Zé, Luiz e Marquinho. Quanta saudade!

A Vilinha do Beaucoult e a Vila Roberto – Personagens da nossa história N8

Ismael Rielli com colaboração de Vera Machado

Com 3 ou 4 casas sem reboco externo ficava bem no comecinho da rua Duque de Caxias, ao lado do hotel Plaza na parte baixa do terreno do Beaulcault.

Lá moraram: Dito Machado, motorista da perua do hotel por 54 anos, marido da longeva Nice (Eunice Beghini) 104 anos, pais da Vera e da Maria do Carmo.

Bermiro, cozinheiro, pai do Nego e do Nenê do Bermiro e do Zé da Ana.

Engraçado: o Nenê e o Nego eram do Bermiro, o Zé era da Ana, a mãe.

As irmãs eram Bene e Gina.

Porteiro noturno, o Zé da Noite era marido da Maria, pai da Bueno do Itau e da Sandra.

O motorista Renato Vitachi, marido da Carmen, pai da Claudete, que, depois construiu sua própria casa na rua Paraguai.

O cozinheiro Miguel Delangélica, marido da Benedita, pais da Enia, da Terezinha, do Chicão e da Maria Aparecida.

Toninho Andreata, pai do Gigio, e da Regina, que se casou com um Beaucault.

O terreiro de todas as casas era único e congregava vizinhos amigos.

Um pouco acima dessa vilinha, Tiãozinho Gonçalves torrava café e Zé Mourão, marido da Sianica, morador da vila Neusa, abatia frangos caipiras.

Frango de granja não havia. Fornecedores dos bairros, especialmente dos Moreiras, traziam frangos e galotes em jacás.

ZÉ Mourão encaixava o pescoço do frango entre o pai de todos e o fura bolo e num golpe rápido, sem sofrimento, os frangos eram abatidos e, logo em seguida, mergulhados em agua fervendo para depenagem.

Era nessa hora que muitas crianças e adultos entravam em ação: ajudavam Mourão a limpar o frango com pagamento generoso em pés, pescoços, cabeça, asas, moelas, fígados e corações. Era a mistura de muitas famílias pobres e não tão pobres, cujos filhos ajudavam Mourão.

A vila Roberto

Foi construída pelo Alemão Roberto Kutchat, acionista da Brahma, que se encantou por nossa terra e aqui investiu pesado, adquirindo vasta área nas cercanias do hotel Tamoyo, localização privilegiada.

Além da famosa casa de sapé, no alto do morro, a “casa da alemoa”, a viúva Matilde, hospedava políticos ilustres como Adhemar de Barros, Dr Roberto, que já adquirira uma fazenda no sopé do morro pelado, a fazenda Paraiso, construiu duas fileiras de casas na parte baixa de sua gleba na rua São Paulo: 6 casas com telhados íngremes na frente e mais 3 casas atrás. Uma vila elegante estilo Alpino, a enfeitar as fraldas da montanha.

Ali moraram, dentre outros, como inquilinos, ou como proprietários – algumas casas foram vendidas há anos. Ali moraram Ditinho Matielo, Madame Cintra, Angelo Canepa, Emir Pinheiro, fundadora da APAE, o carioca Lima, que editou o Lindoia Jornal, Werner Krueger da doceria Blumenau, a carioca Belinha, sogra de dois filhos do Morangão, que vivia às turras, como gato e cachorro com a vizinha, a alfabetizadora Professora Carolina do Mendes Peludo do Parque Hotel, Carlos e Inês Maganha com suas 3 filhas.

Numa casa mais modesta na rua de trás, rua Zé Biscuola, moraram as famílias do Serafim Parreira e do Miro Biscuola, dentre muitos outros.

O ecológico Dr Campos e Silva lamenta que a simpática e poética Vila Roberto não tenha sido tombada. A maioria das casas foram reformadas, ampliadas e desfiguradas.

Vila Roberto

Foto: Viva Águas de Lindóia.

Clube Umuarama, anos 60 – Personagens da história N7

Uma homenagem ao João Escrivão, que ao lado de sua esposa Márcia fez muito pela vida cultural das noites aqualindoianas “daquele tempo”.

Águas de Lindoia ainda vivia a realidade das tardes silenciosas.

E, se as tardes eram silenciosas, o mesmo acontecia com as noites. Que paz! Que tranquilidade!

Mas nós, jovens naquela época, lamentávamos essa paz e tranquilidade.

Que paz, que tranquilidade, coisa nenhuma, assim não dá, o tempo não passava para nosso desespero.

A nossa turminha vivia reclamando, queríamos barulho, agitação, divertimento…

(Ataulfo, permita-me, eu era feliz e não sabia).

Terminada a sessão do cinema, a noite terminava também.

Porém alguns “boêmios” como o Gildo, o Zé Luiz e eu, ficávamos quase sempre, andando pela deserta Rua Duque, ou sentados no muro da Prefeitura, ou pros lados da Olaria. Conversas de matar o tempo, piadas idiotas, mulheres dos outros e outro temas próprios da idade, mas com um tema sempre presente: a falta de ter o que fazer.

Citei nós três, mas frequentemente tínhamos a companhia de outros jovens, o Carlão, o Odyr, o Dito do Adelino… e, evidentemente, não éramos a única turma, mas não me lembro de outra.

Na segunda metade dos 50, um grupo de cidadãos resolveu reunir em uma sociedade organizada o nosso povo e dar um pouco mais de vida às noites

Nomeio os que me lembro: Henrique Michelini, Bernardino, Isaias e o João Escrivão (Dr João Batista Filho), este último considero um verdadeiro herói, me emociono quando penso na dedicação e competência, com que ele se dedicou à luta.

Tentaram fundar uma sociedade a SEAL, Sociedade Esportiva Águas de Lindoia, não deu certo. Sobre esse assunto já comentei em outro texto.

Homens de fibra, não desistiram e passado um tempo, resolveram fundar um misto de clube e local de divertimento aberto, pois qualquer pessoa poderia frequentá-lo, não precisava ser sócio. Também, numa cidade turística não poderia ser diferente.

Partiram do zero, foi um belo trabalho a construção do clube, contando inclusive com voluntários. Logo o prédio foi concluído, paredes de madeira, piso de taco (no salão) e cimentado no bar e sanitários.

O sonho daqueles idealistas e de nós jovens, realizou-se.

(Tem hora que eu nem acredito)

O nome do “clube”? UMUARAMA!

UMUARAMA, quantos sonhos, quantas alegrias, quantos amores…

Ele localizava-se às margens do antigo lago, hoje praça Dr Adhemar de Barros e o acesso a ele se dava por um caminho em terra e o que é mais importante, um escurinho maravilhoso, extremamente útil nas idas e nas voltas dos bailes e brincadeiras.

O UMUARAMA, certamente permeia as doces recordações dos que o frequentaram.

Como era bonito ver o Valter (Avancine) e a Bilia exibirem suas qualidades de dançarinos, eram os primeiros a entrarem na pista, nos bailes e nas brincadeiras animadas por LPs.

Nas mesas alegres grupos de amigos, casais num romântico tititi, tititizinho bem entendido, até mesmo austeros senhores com os olhos pregados nas filhinhas que deslizavam pela pista de dança.

A gente ficava de olho nas mesas com belas meninas, muitas acompanhadas da família. A vontade de “tirá-las” pra dançar era muita, mas e o medo de levar tábua?

Um golinho pra criar coragem não era raro.

Os bailes eram animados por conjuntos locais, mas a orquestra do Huguinho de Amparo vinha nos alegrar com certa frequência.

Lembro-me de um final de ano em que a nossa turma ficou no clube até… quando voltava pra casa encontrei-me com minha mãe que estava indo fazer compras na venda, não me disse nada, mas olhou feio.

A noite que considero a mais grandiosa dos meus tempos de UMUARAMA foi a que comemorava os 25 anos da emancipação política de Águas de Lindoia. Que noite maravilhosa!

O clube lotado, a orquestra do Huguinho com categoria animava os festeiros.

A música que era sucesso, tocada em todas as rádios era Poema, cantada por Renato Guimarães com um trecho declamado por Enzo de Almeida Passos. Uma bela música.

Pois nessa noite o Enzo de Almeida Passos também estava no UMUARAMA e quando a orquestra do Huguinho tocou a música e o “crooner” Benjamin Armeline cantou, o Enzo subiu ao palco e fez a declamação. Maravilhoso, inesquecível.

(procurando pelo nome dos autores da música acessei o google, não ficou claro mas creio que os autores são Fernando Dias e o próprio Enzo.

Confesso, ao voltar depois de mais de 50 anos ouvir POEMA me deu vontade de chorar, é eu sou assim.)

Esse foi o meu UMUARAMA o palácio dos meus sonhos.

Obrigado aos homens que o construíram, obrigado particularmente a você meu amigo JOÃO ESCRIVÃO.

Foto

viva águas de lindóia.

Orlei Bragato Zamboim,

Recebendo a faixa de rainha dos estudantes, Clube Umuarama, 1966. 

As Vilas dos Hotéis – a Vila Neusa e a Vila do Aristides – Personagens da nossa história N6

Naquele então vários hotéis, a maioria deles, forneciam morada para seus funcionários, em vilas espalhadas nas Thermas de Lindóia.

O salário dos funcionários não era lá essas coisas, mas eles viviam bem, sem muita dificuldade para manter a família. Não pagavam aluguel e ganhavam muito mais de gorjeta do que de salario. Os hóspedes daquele tempo eram pródigos e nossa estância era muito chique, frequentada por turistas endinheirados, que aqui, nas férias, passavam 15 dias ou mais.

O quase centenário majestoso hotel Glória tinha um alojamento para funcionários solteiros, de fora, ao pé do morro da Escadaria da Graça até as piscinas, ao lado de uma estrada de terra que dava acesso para veículos que iam pra Igreja.

Entre o hotel Lindóia e o Locomóvel (APAE) algumas casa acolheram funcionários cujos descendentes lá moram, belos e fagueiros, até hoje- família do Zé Sangana, do Cido Belo, da Clô e do Clovinho do Bar do Ponto, o gerente Mauro e a esposa Raquel, de Poços de Caldas, também moraram lá, Paixão e Néia moravam no Locomóvel.

O Metro Hotel, um hotel de porte médio, do Mário, da Rosa e do Serginho Raush, também tinha sua Vila com duas fileiras de casas no Cavalinho Branco. Na parede lateral, lia-se: Residência dos Funcionários do Metro Hotel.

Dentre outros, lá moraram: Pedro Cadan e sua vasta prole, Pio do Dito Pinto e sua vasta prole, Sinézio Vilas Boas e sua vasta prole, Antônio Baiano e Sebastiana com seus 4 filhos que lá permaneceram até a derrubada da Vila, Cido Magrini e tantos outros.

A Vila do Tamoyo era mais chique. Ficava na Olaria-nome do bairro naquele então-bem na frente do casarão do Gonçalo da Tirde, pais do Zé Alves e do Neno.

Um conjunto de sobrados na Avenida Brasil e uma série de casa térreas na rua Maranhão que, incólumes, lá continuam sediando comércio e residências: Imobiliária, escritório de Advocacia, Barbeiro, Dentista, Costureira, Artesã, e o escritório-morada do saudoso finado Zé Guilherme , o Pisca.

Na vila do Tamoyo moraram muitos funcionários do hotel e alguns não funcionários que adquiriram algumas casas com a “debacle” da empresa.

Por lá passaram os irmãos Suman, Benedito e Nadir, que comprou a casa onde morava, em cujo quintal edificou a lojinha Brotoeja; o Mário Bolognesi, marido da telefonista Terezinha do Dito Bicudo; a família do Dito Moraes; a família do andejo Dito Franco; Chico Carneiro, marido da Filinha; Filomena Matielo com o Luis Maneco; Avelino Soares e Talina Renzo; Ernesta Mourão mãe da Cema, da Cida, do Hélio e do Raimunda; família do Zé Pelatieri.

Adquiriu uma das casas e lá reside ainda hoje Miguelzinho da Zinha do Pedro Paes.

Maria José, do Bastiâozinho Franco, mãe do Japão, foi uma das que comprou a casa onde morava e lá continuava forte e rija ate hoje.

Last but not least, lá morou também um Sargento rodoviário, marido da dadivosa, semostradeira, muito “prafrentex” para a época, Elenir, apelidada Mossoró. Por onde andarão?

Hoje a maioria das casas da Rua Maranhão são da Gloria do Ico.

Foto 1 Hotel Monte Real, antigo Tamoyo.

Foto 2 Casas de funcionários do Hotel Tamoyo, hoje na maioria funciona lojas de comércio.

As telefonistas – Personagens da história N5

Ismael Rielli

Com colaboração de Maria José Pinheiro

O centro telefônico sempre funcionou no coração da cidade, na rua Duque de Caxias, ao lado da Casa Confiança, no Edifício Ritz, o primeiro da rua, cuja construção permaneceu interrompida por um bom tempo.

Era um salão não muito espaçoso com um biombo dotado de uma abertura e atrás dele, as telefonistas que trabalhavam 4 turnos de 6hs.

Na sala de espera, duas cabines para onde eram encaminhados os contemplados –ufa- com a ligação.

Serviço insalubre, as telefonistas ficavam, o tempo todo, com os fones do ouvido e tinham uma habilidade incrível para enfiar, nos buracos do painel, os cabos de conexão.

Uma barulheira infernal, com fala sempre alta.

Os interurbanos para São Paulo eram demoradíssimos. Para o Rio de Janeiro (eram muitos hospedes cariocas) nem se fale.

Os turistas costumavam fazer estações de 15 dias. Os maridos vinham nos finais de semana, deixando nos Hotéis esposas e filhos.

Para comunicações durante a semana, as madamas, logo cedo, solicitavam a ligação, atravessavam a rua e no salão do Jote faziam o cabelo e as unhas, enquanto esperavam as ligações.

Lolinha Ostan era a chefe. Com ela trabalhavam mais de uma dezena de moças e senhoras:

As irmãs Terezinha e Ivete do Dito Bicudo, Cida Renzzo, Valderez do taxista Armando Nicolai, Eliseia do benzedor Dito Firmino, (responsável pela manutenção da rede), Landa do Zezé fotografo, Maria Jose do Bastião Evaristo, Maria Antônia do Narciso Alves, Paulina do Joaquim Malaquia, Dulce do Miro Sulmam, Lucia da Perti, Regina do Carlos Jorge, Dirce Sabadini, Loide do Sertãozinho, além delas nos primeiros tempos, havia também um “telefonisto”, o Alcides que fazia o período noturno. O Alcides não era daqui, passada essa época, nunca mais ouvimos falar dele.

A Sebastiana Mariano do cheque engraxate, cuidava da limpeza.

Os Hotéis maiores passaram a ter suas próprias telefonistas como a Ercília do Cueca, no Hotel Gloria e a Lelei Barreto, do Joao Bicanca, no Tamoyo.

Forçoso reconhecer que com a “Redentora” as comunicações deram um grande salto no Brasil.

O ministro Euclides Quandt de Oliveira esteve aqui para vistorias e inaugurações e se tornou um frequentador da nossa estância.

O progresso esta acabando com nossos orelhões e os telefones fixos diminuem vertiginosamente.

Estamos no império do celular que faz de um tudo,une e desune

e vicia a humanidade.

As elegantes telefonistas: Maria José, Maria Antonia, Valderez, Teresa, Edmee, Ivete, Lola, Yolanda, Elizeia, Cida.

Foto do acervo do Zezé fotógrafo, enviada pelo professor Ismael Rielli.

Informações: Valderez Nicolai

O “Footing” da rua Duque de Caxias -Personagens da nossa história n.4

Ismael Rielli

Entre a Casa Confiança e o beco de acesso a oficina do Mané Jorge, a mais de um metro do nÍvel da calçada, por uma escada em U, com degraus em 3 arestas, chegava-se a um conjunto de 4 lojinhas.

Na primeira, de baixo para cima, a tinturaria do sanfoneiro Zé Fabricio ( não deixou herdeiros por aqui) depois, num cômodo um pouco maior, o Correio administrado pela carioca Célia, em seguida a barbearia do Romeu Nicoletti, onde trabalharam Dedé de Inconfidentes, Didácio de Monte Sião, os Décios Biscuolas e Fregonesi e Fernandinho Biscuola e na ultima loja a sapataria do Zé sapateiro.

Nesse espaço, em frente à galeriazinha, era onde, como lagartos, os rapazes, sentados ou encostados “tiravam uma linha” com as meninas de saias rodadas (calça comprida para mulher naquela época, era proibida, foi liberada um pouco depois), aos magotes, soberanas desciam e subiam a Rua Duque de Caxias, da frente do Cine Yara até as proximidades do Hotel Yara.

A rua era delas, as recatadas donzelas da década de 60.

Falamos de uma época em que se amarrava cachorro com linguiça;  quando o plástico ainda não tinha invadido o mundo.

Canecas e canecões eram latas de extrato de tomate Elefante e das latas de azeite Maria ou Carbonel, que o folheiro Lipordino de Monte Sião rebitava e as dotava de asas.

As latas de 4 em 1: marmelada, goiabada, figada e pessegada, bem rebitadas, serviam de pratos aos mais pobres.

Muitas dessas paqueras resultaram em casamentos duradouros. Éramos felizes e não sabíamos.

O muro da Prefeitura ( hoje banco Itaú ) era bem alto no começo, ao lado do Edificio Rafael Jorge. Depois ia despontando na direção do imponente Jatobazeiro, preservado, não passava de um metro de altura. Ali também se postavam os rapazes a observar suas Divas.

No trecho que circundava a casa da Dona Aracy, bem em frente ao Cine Yara, muro relativamente baixo, mas impossível de encostar nele que era encimado por espetantes caroas de Cristo.

O Footing ocorria aos sábados e domingos. Especialmente, aos Domingos, quando os filmes eram exibidos em 2 sessões: ás 19:30h e ás 21:30h. Havia sessões todas as noites às 20:30h. Às Sextas feiras, filmes impróprios, mais ousados, com fiscalização severa na portaria.

Eram cerca de duas horas de caminhada, até quase 21:30h, quando, as que iam ao cinema entravam e as outras, filhas de pais mais severos, voltavam pra casa. 22:00h era muito tarde.

Os que perambulavam pelas cercanias do cinema eram contemplados com músicas românticas de Billy Vaughan e Ray Conniff.

oh tempora! oh mores!

ó tempos! ó costumes!

e como dói!

Nesse espaço, vivo na memória dos setentões, está hoje a galeria Carsini?

O antigo Hotel Guarani do Joaquim Roque – Personagem da história N3

O antigo Hotel Guarani do Joaquim Roque

Ismael Rielli com ajuda de Alda Gavazzi Credidio e Zé Paulo Campos e Silva

O Guarani original era um sobrado comprido, com 10 janelas na lateral de cima,7 aos rés do chão, uma porta com sacada, ladeada por 2 janelas, na frente superior; abaixo, ainda na frente, 3 portas de enrolar e mais 2 na lateral ( essa parte abrigava o famoso e tradicional bar Guarani).

A entrada do hotel era pelos fundos. Separados pelo corredor, dando para um terreno baldio (onde depois seriam construídos a loja de couro do Bulk e o Hotel Yara dos Ancona), enfileiravam-se outros tantos aposentos. O Hotel do Joaquim Roque ficava bem pertinho do Tanque do Cirilo, em frente ao Hotel do Lago, do outro lado da Duque de Caxias, ao lado do Laguinho Hotel. A perua que se vê na foto, com portas de madeira, levava os hóspedes (maioria deles vinha de ônibus) para a fonte e alguns poucos passeios.

Quando criança, quando minha mãe fritava ovos caipiras, deixando-os meio moles, com pão “toteávamos” a gema que se rompia, dizíamos: “estourou o tanque do Cirilo”

Joaquim Roque era filho do Coronel José Roque de Almeida, latifundiário do barreiro (bairro mais antigo do que a própria Água Quente, com 2 escolas), político de prestígio, chegou a presidente da câmara de Serra Negra, na época em que Lindóia e Água Quente a ela pertenciam.

Joaquim Roque, como o pai, também foi político.

O casal Joaquim Roque e Joana Beghini tiveram uma “trempa” de 11 filhos. Três deles vivem fortes e rijos: Irma, Nilza e Saulo.

Quando deixaram o Barreiro, Joaquim Roque residiu um período em Lindoia, de onde se abalou para Monte Sião. Foi plantar algodão no sítio que comprou na Batinga.

Espírito dinâmico, negociador e visionário, voltou para Água Quente para, em parceria com o filho FlÍvio e o genro Aldo Gavazzi, construir um hotel na estância que prosperava. Com muitos turistas em busca de saúde com nossas águas quentes.

Seus 11 filhos nasceram no Barreiro, em Lindoia e na Batinga: 6 mulheres e 5 homens: Nair, Elzira, Irma, Nilza Rute e Lourdes; Flívio, Zé, Luiz, Silvio e Saulo.

Duas irmãs: Nilza e Rute casaram-se com dois irmãos Italianos: Aldo e Domicio Gavazzi. Nair se casou com Freitas, de Lindóia, Elzira, com Rui Procópio, latifundiário de São Simão, perto de Ribeirão Preto. Irma, com o pintor Romildinho Arbeli; Lourdes com o motorista Mario Canela; Zé Roque, padeiro, com Terezinha do Zé Maneco, vendeiro dos Francos; Luiz, garçom e maitre, com Cida da tradicional família Renzzo; Flívio, socio fundador do hotel, casado com Neta – Antonieta, mudou para Atibaia, onde abriu um restaurante; Silvio, garçom não se casou; Saulo, o caçula, meu colega de classe do grupo Tozzi (hoje Hotel Monte Real), turma de 54, foi pra Minas. Estudou agronomia especializando – se na cultura de café. É muito respeitado no assunto. Mora em Varginha, onde tem uma fazenda que produz café fino. Casou-se com a mineira Maria José.

Desfeita a sociedade, o Hotel Guarani foi vendido pro Alberto Grau, que veio de São Paulo.

Hoje pertence ao grupo kalil.

Acoplado pelo prédio novo, pouco sobrou do antigo guarani do Joaquim Roque.

Personagens da História 2 – Hotel Laguinho

Hotel Laguinho.

– por Ismael Rielli com ajuda de Amaury

Construído e explorado pelo barbeiro Cirilo, vindo de monte Sião, um dos pioneiros da parte baixa da cidade, que, nos primórdios, tinha 4 hotéis nas cercanias da fonte. Eram os hotéis Câmara, Senado, Preferido e Glória.

Cirilo arrendou o laguinho pro João Conti. Onze quartos, dez para hóspedes e um para a família: João, Irma e os 3 filhos: Jacó, Amaury e Arcângelo. João Conti, o cozinheiro. A esposa Irma, uma factótum. Auxiliavam-nos dona maria, um descascador de batatas e Cid, filho adotivo, meninote, o garçon.

Crescidos, todos os três filhos eram bons de bola: na defesa e no ataque

Quando O Nhoca, com a ajuda da Tica, construiu o hotel cacique, João Conti o inaugurou e lá permaneceu até comprar o hotel Itália do Ângelo Tezariol, onde, amiúde, se hospedava Tonico e Tinoco. O hotel laguinho deixou de ser hotel e acolheu vários comércios, além da residência e consultório do Dr Adolfo. nos fundos, perto da mina que jorrava agua cristalina e fresca, morava o dito Firmino, eletricista, benzedor de bicheiras, pai da Eliséia do Toninho Galotte

A mina secou.

Na frente, na rua duque de Caxias, instalou-se a agência do expresso brasileiro. Termas de Lindóia era servida pelas duas empresas mais importantes do estado: cometa e brasileiro, além do expresso brasil, que vinha de ouro fino a caminho da capital.

Na esquina da rua Duque de Caxias com a rua do bosque – hoje Zéquinha de

Abreu – Instalou-se o bazar caçula de Nélson de Barros, primo da Irma, que depois o comprou.

Irma, vendeu-o pro João português, marido da Fernanda, que durante muito tempo, até o fim de seus dias, manteve uma bem sortida loja no térreo do hotel Guarany.

Depois vinha a barbearia do Armindinho e “ last but not least” (por último, mas nem por isso menos importante), o saudoso barzinho do Martin Valério, pai da Mercedinha.

Era verdinha e doce a garapa do Martin e nas suas vitrines modestas , mas variada a alegria das crianças: maria mole, pé de moleque, e doces de abóbora e batata em forma de coração, doce de leite, geléia, paçoquinha, cavalinho de bolacha…

Quanta saudade!

No lugar do hotel laguinho edificou se o imponente cortina D”ampezo

Antes o Hotel Laguinho